segunda-feira, 22 de novembro de 2010

AS CRIANÇAS E A TELEVISÃO: uma relação delicada!

Não sou contra assistir televisão, acho a TV um meio de comunicação de massas muito útil, democrático e barato. Sou contra os pais deixarem seus filhos expostos ao que ela nos passa sem um “filtro”. É na infância que se formam nossas noções do que é lícito ou ilícito, moral ou imoral. Essa minha afirmação tem embasamento na teoria de Jean Piaget. Vejamos então:

No aspecto moral, segundo Piaget, a criança passa por uma fase pré-moral, caracterizada pela anomia, coincidindo com o "egocentrismo" infantil e que vai até aproximadamente 4 ou 5 anos. Gradualmente, a criança vai entrando na fase da moral heterônoma e caminha gradualmente para a fase autônoma.


Piaget afirma que essas fases se sucedem sem constituir estágios propriamente ditos. Vamos encontrar adultos em plena fase de anomia e muitos ainda na fase de heteronomia. Poucos conseguem pensar e agir pela sua própria cabeça, seguindo sua consciência interior.

ANOMIA = A (negação) + NOMIA (regra, lei).

HETERONOMIA = A lei, a regra vem do exterior, do outro.

AUTONOMIA = Capacidade de governar a si mesmo.

Na fase de anomia, natural na criança pequena, ainda no egocentrismo, não existem regras e normas. O bebê, por exemplo, quando está com fome, chora e quer ser alimentado na hora. As necessidades básicas determinam as normas de conduta. No indivíduo adulto, caracteriza-se por aquele que não respeita as leis, pessoas, normas.

Na medida em que a criança cresce, ela vai percebendo que o "mundo" tem suas regras. Ela descobre isso também nas brincadeiras com as crianças maiores, que são úteis para ajudá-la a entrar na fase de heteronomia.

Na moralidade heterônoma, os deveres são vistos como externos, impostos coercitivamente e não como obrigações elaboradas pela consciência. O Bem é visto como o cumprimento da ordem, o certo é a observância da regra que não pode ser transgredida nem relativizada por interpretações flexíveis. De certa forma, a intolerância da Igreja, por qualquer interpretação diferente da sua, referente ao Evangelho, manteve a humanidade na heteronomia moral. O bem e o certo estavam na Igreja, no Estado e não na consciência interior do indivíduo.

A responsabilidade pelos atos é avaliada de acordo com as conseqüências objetivas das ações e não pelas intenções.

O indivíduo obedece as normas por medo da punição. Na ausência da autoridade ocorre a desordem, a indisciplina.

Na moralidade autônoma, o indivíduo adquire a consciência moral. Os deveres são cumpridos com consciência de sua necessidade e significação. Possui princípios éticos e morais. Na ausência da autoridade continua o mesmo. É responsável, auto-disciplinado e justo. A responsabilidade pelos atos é proporcional à intenção e não apenas pelas conseqüências do ato.

O processo educativo deve conduzir a criança a sair de seu egocentrismo, natural nos primeiros anos, caracterizado pela anomia, e entrar gradualmente na heteronomia, encaminhando-se naturalmente para a sua própria autonomia moral e intelectual que é o objetivo final da educação moral.

Esse processo de descentralização conduz do egocentrismo (natural na criança pequena) caracterizado pela anomia, à autonomia moral e intelectual.

As atividades de cooperação, num ambiente de respeito mútuo, embasado na afetividade, preservam do egoísmo e do orgulho, auxiliando a criança no longo processo de descentralização, conduzindo-a gradativamente da heteronomia para a autonomia moral. Um ambiente de medo, autoritarismo, respeito unilateral tende a perpetuar a heteronomia.

Do egocentrismo inicial a criança, gradualmente, vai "saindo" de si mesma, ampliando sua visão de mundo e percebendo que faz parte de um todo maior.

Gradualmente, aprende a cooperar, a respeitar e a amar o próximo.

Enquanto a criança ainda não transcendeu a fase da heteronomia é necessário, sim, que ela tenha ao seu lado um adulto que a ajude a “filtrar” as informações, a ajude a entender que nem sempre o que está na televisão é para ser imitado, que uma capa não faz um ser humano voar, que cair de um abismo e sobreviver é coisa de desenho animado, enfim, que há muitas diferenças entre a ficção e a realidade!

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